Tuesday, May 11, 2010

H Ar Mon I - Introdução

Por inquietante medo da morte, meu pai indicou análise com Emílio Rodrigué. Como pistolas apontadas a cada palavra, senti dúvidas. Foi o que precisava. Rondar intimamente o fim. “Um Beijo de Outono em Pleno Verão” é a história desse risco. “Sopros de Primavera no Vazio do Inverno” são encontros, esses instantes...

O Caso:
Lembro que a idéia de conhecer o analista de meu pai era excitante. Não sei bem como começou a análise, ou como descrever a intensidade do que aconteceu entre nós. Sei que tivemos um filho. A idéia de “H Ar Mon I” é fruto dessa união legitimadamente edipiana. Legitimadamente, porque não deveria ser legítima, mas foi legitimada, entre as palavras, nas entrelinhas.

“Gigante Pela Própria Natureza” foi o primeiro livro de Emílio que li. A partir daí, eu não era apenas a cliente, queria reviver seus passos. Emílio se autodenominou “caçador de labirintos” e pensei que, caçando o caçador, descobriria o mistério.

Li “Lição de Ondina” e comecei a correr e escrever páginas e páginas descrevendo experiências, correntes de pensamento. Segundo meu pai, eu quis ter uma série de experiências antropológicas. Emílio escreve entre verdade e ficção, diz que tudo o que escreve é verdade e nada do que escreve é verdade. Eu lia meus escritos em voz alta durante as sessões de terapia. Terminei por dizer mais do que diria, sem que as palavras já estivessem no papel.

Lembro que fiz para mim uma rotina: Sair da análise no pequeno apartamento do “Ondina Apart Hotel” onde Emílio morava e tomar água de côco numa das barracas de praia lá perto, imaginando passagens dos livros... Emílio conta que as pessoas se surpreendem com a praia de Ondina, elas esperam uma praia mais exuberante. Eu entendo perfeitamente o que ele quer dizer. Acho que o próprio Emílio tem esse impacto: a lenda é muito mais exuberante do que a realidade, meio selvagem.

Lembro de ir ao terreiro Ilê Axé Opó Afonjá e ficar procurando os personagens descritos em “Gigante Pela Própria Natureza”. Descobri alguns, mas nem de perto o mistério se deixou desacertar.

Emílio não acreditava em vida após a morte. Penso que a idéia de deixar a vida não o agradava nem um pouco. Ele gostava de viver. Como respondi ao meu pai, quando perguntou por que eu chamava Emílio de um homem bem sucedido: Emílio foi um homem bem sucedido em fazer de sua vida uma coisa gostosa.

Fui morar no Texas, e acabaram as sessões de terapia. Encontrava Emílio em festas ou quando o visitava em seu apartamento, mas nunca saíamos só os dois. Pedi para tomarmos uma cerveja na praia de Ondina. Emílio resistiu àquela cerveja, eu insisti e ele parcialmente cedeu. Não gostou de se ver alvo de meu ritual, pensei.

Fomos tomar uma cerveja, não na praia de Ondina, mas na piscina (apinhada de turistas barulhentos) do “Ondina Apart Hotel”. Tomamos a primeira cerveja, tentando conversar amenidades. Nervosos naquele lugar diferente. Terminamos a cerveja e fomos para a piscina. Eu desci pela escadinha e ele impressionou, dando um pulo no meio das pessoas, depois brincou com um menininho de mais ou menos cinco anos.

Saímos da piscina e quando Emílio fez menção de pedir a conta, a garçonete (que parecia conhecer e simpatizar com ele) foi buscar outra cerveja. Pareceu-nos justo.

Naquele momento me ocorreu porque ele resistiu: Emilio não queria morrer. Pensei em nosso encontro como uma despedida. Eu sabia que ele apreciava uma precisa malícia natural e quis dizer, da maneira como podia, que a intimidade deixa arranhar. Lembra de “Gigante pela Própria Natureza”, quando você conta a conversa em que Mãe Estela te convidou para ser Ogã do Ile Axé Opó Afonjá? Ele respondeu que não e continuei: Você disse a ela que não sabia se seria um bom Ogã, porque você não acreditava em nada. E ela te disse que você era muito exigente consigo mesmo.

Ana Barbara Neves


2 comments:

  1. Babi, por um mistério qualquer, terminei de ler esse texto absolutamente comovida e arrepiada.

    Um beijo grande, minha preta. Um beijo n'alma.

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  2. obrigado linda!

    essas palavras me ajudam a existir.

    tudo de bom...

    Paz ;)

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